terça-feira, 5 de janeiro de 2010

"Angústia" - Graciliano Ramos

Luís da Silva, personagem-narrador do livro, é um funcionário público que vive só com uma empregada surda, num casebre em Maceió/AL, repleto de ratos, onde se vê e ouve a rotina dos vizinhos próximos. Órfão desde novo, desenvolve uma auto depreciação, um senso crítico exagerado, preso a sombras do passado, cheio de frustrações, onde figuras como o avô, o pai e outras presenças funestas povoam suas lembranças.
Aos trinta nos, fica noivo de Marina, a filha dos vizinhos, mas logo ela é seduzida por Julião Tavares, um rico comerciante. Entre várias obsessões, soma-se mais uma, o asco e ódio por Julião Tavares, por ter lhe tirado a noiva, engravidado-a e mando fazer aborto.
Os personagens que compõem a trama são construídos na miséria, sofrimento, um real quadro de angústia humana.
Compulsão por lavar as mãos, observador dos transeuntes, pessoas comuns que circulavam pelo bonde, pelas ruas, o livro consegue nos fazer caminhar pelo pensamento doentio e obsessivo, desde a descrição do contar de seus passos quando anda, até esmiuçar-se em detalhes observados desde os paralelepípedos da rua, pés e pernas, até os sentimentos refletidos nos que vê.
Luís da Silva é um personagem preso em si mesmo e em seus pensamentos, escravo de seu ódio e asco pelo mundo e pessoas. O ápice de sua paranóia dá-se com Julião Tavares, quando desenvolve a idéia de assassiná-lo por ter-lhe roubado a noiva. Porém, mesmo para uma mente desatinada, pensamentos ávidos e velozes, não resiste ao ato de matar. Ao final, o autor consegue que entremos na mente desvairada do personagem, numa profusão de imaginários desencontrados, auge da loucura.
Como o título bem diz, uma angústia.



"Como certos acontecimentos insignificantes tomam vulto, perturbam a gente! Vamos andando sem nada ver. O mundo é empastado e nevoento. Súbito uma coisa entre mil nos desperta a atenção e nos acompanha. (...) Quanto mais me vejo rodeado mais me isolo e entristeço. (...) A multidão é hostil e terrível. "

"O tapete vermelho da escada me dava impressão desagradável. Podia ser de outra cor. As luzes do farol mudavam de minuto a minuto, branca, vermelha, branca, vermelha. Porque não aparecia uma terceira cor? Aquilo era irritante, mas o farol me atraía. Pelo menos variava mais que a sentinela, tinha mais vida que a sentinela."

3 comentários:

Rilva Sousa-Muñoz, Editora do Semioblog disse...

Sem dúvida, a princípio, o protagonista parece ser um personagem portador de TOC! Mas, aparentemente, depois, se torna psicótico. Deve ser um livro muito denso.

João Luis Carvalho disse...

Olá!
Sempre muito boas as postagens!

Acabei linkando mais umas duas ou três no meu Blog.

Um pedido:
se possível, que resenhassem o livro "O Bosque Das Ilusões Perdidas(Le Grand Meaulnes)" do francês Alain Fournier. Gostaria de vê-lo feito por vocês!

No mais, continuem sempre com o excelente trabalho!

Um abraço!
j.

Cássia & Rilva disse...

Olá, João. Obrigada pelo comentário. Sua sugestão foi anotada. Grande abraço.