terça-feira, 9 de novembro de 2010

Encerramento do Diário Literal

Esta é a última postagem deste blog, depois de quase três anos de postagem de nossas despretensiosas resenhas de livros, com períodos de assiduidade e outros de ausência.

Agradecemos aos nossos visitantes.

Deixamos uma frase de despedida:
"Penso noventa e nove vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho em profundo silêncio - e eis que a verdade se me revela." (Albert Einstein)


Namaste!

sábado, 6 de novembro de 2010

"Asfalto selvagem - Engraçadinha seus amores e seus pecados" - Nelson Rodrigues

Engraçadinha é uma adolescente voluptuosa e muito bonita (quase uma "Lolita" de Nabokov), apaixonada pelo primo Sílvio, que está casamento marcado com Letícia, também prima. Mesmo noiva de Zózimo, rapaz de humildade exagerada, simplório, arma uma trama para desfazer o enlace matrimonial, seduzindo Sílvio e simulando uma gravidez. O pai, Dr. Vasconcelos, político, ao saber, confessa à filha que Sílvio não é seu primo, mas irmão, exigindo e até contratando um profissional que a faça abortar, além de reconstituir a virgindade perdida.
Nesse período, vários personagens aparecem na trama: as tias velhas de Engraçadinha, Tia Ceci, Tia Zezé e seu marido Nonô, Odorico Quintela, entre outros.
Além da narrativa descritiva dos acontecimentos, cada personagem tem seu pensamento dissecado, mostrando a lascívia, os desejos obscuros, pecaminosos, as verdades que não são ditas ou admitidas. Mas nem todos os pensamentos conseguem ser guardados, a exemplo do Odorico, que, para relatar os motivos pelo qual o juiz teria cometido suicídio, fala sobre uma possível paixão do Dr. Arnaldo pela filha, reflexo de seu próprio desejo.
A esse tempo, Sílvio já sente-se muito atraído por Engraçadinha e não consegue resistir a seus encantos. Ao saber que trata-se de sua irmã, mutila-se, para extirpar o desejo que sentia. Dr. Arnaldo, não conseguindo o perdão do filho, suicida-se.
Engraçadinha casa-se com Zózimo, descobre-se realmente grávida de Sílvio e decide ter o filho. Daí vivem 20 anos, ela agora uma protestante fervorosa, esquecida dos prazeres do mundo que a assaltavam, num casamento sem amor, uma vida doméstica, onde cada dia é uma repetição de obrigações e orações, para criar os cinco filhos e cuidar da casa.
Nesse momento, ressurge o Juiz Odorico Quintela, que 20 anos antes era procurador, o mesmo que discursara no enterro do seu pai, bem lembravam Engraçadinha e Zózimo.
Ela vê na filha mais nova, Silene, dos cinco que teve, um espelho dela mesma: a devassidão e luxúria. A adolescente namora Leleco, menino inibido, seu primeiro parceiro na cama que, ao se ver afrontado por três amigos, assassina um deles.
Dr. Odorico, para conquistar aquela que foi objeto de seus desejos pelos longos 20 anos, presenteia a família, faz favores, tudo planeja para seduzir Engraçadinha.
Como "membro do judiciário", faz-se valer de jornalistas e intelectuais da época para alimentar sua retórica, usa também seu prestígio para obter favores e influenciar decisões.
Nesse tempo também, ressurge do passado Letícia, que também, durante os 20 anos, ainda nutre o amor doentio pela prima e vê o espelho dela em Silene, que tanta seduzir.
A volúpia da juventude arrebata Engraçadinha, quando conhece Luís Cláudio, não resiste e o faz seu amante.
O romance é entrançado por personagens passageiros, diálogos tricotados ao acaso, assim fazendo críticas a literatos, políticos e personalidades da época, fazendo um retrato histórico - início dos anos 40. Uma obra de fôlego, que se consegue também ler sem que se dê conta de seu extenso volume.
Incesto, pederastia, luxúria, traição, corrupção, vida familiar, casamentos em crise, amores doentios e obsessivos... temas tão bem trabalhados por Nelson Rodrigues.
A obra foi transporta para cinema em 1981, dirigido por Haroldo Marinho Barbosa, tendo como protagonistas Lucélia Santos, Luís Fernando Guimarães, Wilson Grey, Daniel Dantas, entre outros. Também foi feito em forma de minissérie em 18 capítulos, num canal de TV aberto, em 1995, sob direção de Carlos Gerbase, João Henrique Jardim e Denise Saraceni, participando como elenco Cláudia Raia, Alessandra Negrini, Paulo Betti, Pedro Paulo Rangel, Hugo Carvana, entre outros.
Vale a pena ser lido, devorado, interpretado e sentido, numa análise na natureza humana de forma quase primitiva, mas bem realista.
Excelente leitura!

Passagens:

"[Dr. Bergamini] aprendera, em vinte anos de ginecologia, que a mulher normal, equilibrada, é capaz de amar dois, três, quatro ao mesmo tempo. O amor múltiplo é uma exigência sadia de sua carne e de sua alma. A exclusividade que ela dá, e que o homem exige, representa um equívoco ou, pior: - um aviltamento progressivo fatal. Cada minuto de felicidade significa assim um novo desgaste. Há tão pouco amor por isso mesmo: - porque o degradam com deveres, com obrigações. Como dever, como obrigação, a fidelidade é um virtude vil!"

"...Dr. Arnaldo fez uma reflexão que o surpreendeu e, mesmo, o consternou: - 'Só um débil mental pode casar-se na presunção de que o casamento é divertido, variado ou simplesmente tolerável. É divertido como um túmulo'. Essa idéia, que jamais lhe ocorrera, deixou-o estupefato. Estupefato e indignado consigo mesmo. - 'Eu pensei isso!', foi seu estupor honesto."

"...o juiz estava achando deprimente era o Zózimo. Por detrás de sua polidez, fazia uma generalização brutal: - 'Marido é assim! Camisa rubro-negra sem mangas, axilas abundantes e obscenas, de chinelos e sem meias!' - 'De resto' - concluía - 'é preciso muito cinismo para que um casal, qualquer casal, chegue às bodas de prata!'"

"- (...) O amigo não interessa! O amigo trai na primeira esquina! - e repetia, numa certeza enfática: - Na primeira esquina! Ao passo que o inimigo não trai nunca. O inimigo é fiel, percebeu? O inimigo é o que vai cuspir na cova da gente!"

"Guimarães Rosa pode ser um gênio. Mas é a maior monotonia verbal de todos os tempos. Dirá você que é um problema de acomodação auditiva. Mas, das duas, uma: ou o sujeito aceita o Guimarães Rosa e repudia os outros; ou prefere os outros e chuta o Guimarães Rosa"

"'Só os bêbados se confessam. Eu, se fosse carola, enchia a cara antes do confessionário. Para contar tudo na batata'. Não acreditava na sinceridade dos sóbrios, dos lúcidos. E acrescenta, num lampejo inesperado: - 'A confissão católica é, para a alma feminina, como um toque ginecológico, sem luva'."

"O Juscelino dá confiança demais à juventude, corteja a juventude. Mas escuta cá: - o que é o jovem? O jovem ou é um Rimbaud ou um débil mental, digno do SAM'."


quarta-feira, 3 de novembro de 2010

"A Outra Volta do Parafuso" - Henry James


Escrito em 1898, publicado originalmente sob a forma de artigos entre janeiro e abril em uma revista inglesa, o livro "A Outra Volta do Parafuso" é narrado em primeira pessoa, para fazer entender a existência de relatos feitos, anos antes, pela irmã da protagonista que relata a história. A protagonista uma jovem peceptora contratada para cuidar de duas crianças, cujos pais morreram em um acidente.

Aos 20 anos de idade, a mais nova das filhas de um pastor resolve aceitar um emprego como preceptora dessas crianças, Flora e Miles, em substituição à antiga preceptora que falecera de forma misteriosa, a Srta. Jessel.

Estranhos acontecimentos tomam conta da rotina de trabalho, como aparições da empregada antiga que a protagonista substituía, e de Quint, um antigo funcionário e suposto namorado da Srta. Jessel, também morto. Começamos, então, a perceber a influência que tais personagens sobre as crianças. Isso leva a nova preceptora a investigar o que está acontecendo, com o auxílio de Mrs. Grose, que cuidava dos afazeres domésticos.

O interesse pelos fatos transformam-se em obsessão, confundindo, no decorrer da leitura, o real e o imaginário, com reflexo na forma como a preceptora vê as crianças e em seu próprio comportamento.

Trata-se de uma narrativa que se chama de "fantástica", ou seja, permeada por fantasmas. Mas, às vezes, temos a impressão de que a protagonista está mesmo é sofrendo de uma doença mental. Isso torna a narativa muito rica e instigante. Na dimensão que parece fantasmagórica, percebe-se um tom de sobrenatural, mas é um sobrenatural discreto, sutil. Não é uma história de terror, como são geralmente as histórias do sobrenatural.

As personagens são, na verdade, ambivalentes e com muitas contradições, refletindo o gênero humano de forma muito criativa.

Um livro que nos prende do início ao fim e, ao final... bem, aí vocês aproveitem, leiam e encontrem o final dessa trama.

Boa leitura!

Um trecho do livro para estimular a leitura:

Um dos pensamentos que me acompanhavam [...] era que seria encantador como um conto encantador se eu me encontrasse subitamente com alguém. Alguém apareceria, de repente, na volta do caminho e ficaria parado a fitar-me, sorrindo, com ar de aprovação. Não pedia mais do que isso: pedia apenas que ele soubesse, e a única maneira de estar certa de que ele o sabia teria sido lê-lo na bondosa expressão de seu belo rosto. Isso estava claramente presente em minha imaginação – isto é, o rosto – quando, na primeira dessas ocasiões, no fim de um longo dia de junho, detive-me subitamente, ao sair de trás de uns arbustos e deparar com a casa à minha frente. O que me pregou no chão – chocando-me muito mais do que qualquer outra visão o poderia ter feito – foi a sensação de que a minha fantasia, num abrir e fechar de olhos, tornara-se real. Lá estava ele!... mas muito no alto, além do relvado, no próprio topo da torre [...].

domingo, 29 de agosto de 2010

"Ressurreição" - Machado de Assis

Félix, solteiro convicto de 36 anos, cujos romances têm prazo de seis meses duração, vê-se arrebatado de amores pela irmã viúva do amigo Viana, Lívia. O sentimento o surpreende, nascido da ânsia de uma nova aventura e, alimentado, transforma-se em algo que o faz pensar em enlace matrimonial, para surpresa da sociedade e dos amigos. A experiência de vida que o levou até ali, de casos amorosos fugazes, não prepararam seu espírito para a confiança suficiente que um relacionamento exigiria. Assim, o ciúme constante, o receio em assumir o romance publicamente, as dúvidas são constantes no pensamento de Félix.

O livro trata de amores, paixões, numa cadeia de gostar insano, culpas e ciúmes gerados pelo gostar de outrem sobre o objeto amado; retrato de uma sociedade perdida nos amores e desamores; mostra o romantismo da primeira fase de Machado de Assis, é o seu primeiro romance escrito. 

"Os meus amores são semestrais; duram mais que as rosas, duram duas estações. Para meu coração, um ano é uma eternidade. Não há ternura que dure mais de seis meses; ao cabo desse tempo, o amor prepara as malas e deixa o coração como um viajante deixa o hotel; entra depois o aborrecimento mau hóspede"

"Só mais tarde te convencerás de que viver não é obedecer às paixões, mas aborrecê-las ou sufocá-las"

"A confiança também se parece com a indiferença, e a indiferença é o pior de todos os males"

"Há quem diga que o primeiro amor nasce apenas da necessidade de amar"

"Podes ser feliz do mesmo modo que o queiras ser então; basta que te ame alguém. (...) Falta-me a primeira condição da paz interior: eu não creio na sinceridade dos outros"

Download do livro: Ressurreição - Machado de Assis

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

"Uma lágrima de mulher" - Aluísio Azevedo


Maffei, ambicioso pescador de uma das Ilhas de Lipari, no mar da Sicília, decide ir para Nápoles procurar riqueza e deixa a filha Rosalina com Ângela, uma espécie de ama. Volta anos depois, mas encontra a jovem filha apaixonada por Miguel Rizio, pobre, sem família que desse um enlace feliz a esse romance, decide levar Rosalina para Nápoles, pois lá ela arranjaria um marido, se não rico, mas que desse a ele (Maffei) um título de nobreza. Viaja pensando que matara Miguel em uma briga que tiveram, deixando ordem para que dessem fim ao corpo.
Miguel sobrevive e, anos mais tarde, consegue descobrir onde Rosalina mora, indo a seu encontro. Mas a Rosalina que existe é outra, transformada, cercada de luxos, com outros aprendizados e novas experiências. Encontramos aí já os traços do naturalismo (excetuando-se o romantismo exagerado), quando o mundo social e hereditário influencia na formação do indivíduo.
O final do livro traz semelhanças shakesperianas, mas não surpreende.
A pequena novela é ambientado na primeira metade do século XIX e é o primeiro romance de Aluísio Azevedo.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

"Escola de mulheres" - Molière

Peça de Teatro que fala sobre o adultério, tendo Arnolfo como personagem principal,
conhecido como aquele que ri dos homens que são traídos por suas esposas. Dizendo-se conhecedor da alma feminina, julga impossível ser ele mesmo vítima de uma traição.
Arnolfo decide casar-se com Inês, sua protegida desde os 4 anos de idade e cercou por cuidados especiais, objetivando torná-la uma mulher passiva, ignorante, estúpida e, portanto (em seu ponto de vista), incapaz de traí-lo, maior de seus medos.
Porém, surge Horácio, jovem e bonito, que conquista a inocente moça, mesmo em sua ingenuidade. Horácio tem como confidente o próprio Arnolfo, que considera amigo e, desconhecendo ser ele o misterioso protetor de Inês, vê suas investidas a sua amada sempre frustradas.
Crisaldo, os tolos criados Alain e Georgette, Oronte são outros personagens que fazem parte da trama.
Afinal, a ignorância pode ser garantia de um amor sem traições? Ou a ignorância impede que veja que seja traição, não a impedindo? São questões da peça, muito divertida, fácil leitura.


sábado, 7 de agosto de 2010

"Os belos e os malditos" - F. Scott Fitzgerald

Adam Patch, proprietário de uma enorme fortuna, tem como único herdeiro Antony Patch, seu neto, que, desde a época da faculdade, desenvolve um estilo de vida de sem trabalho ou responsabilidades, em farras com amigos, apesar do pouco recurso que tinha, já que o avô recusava-se a dar-lhe mesadas. Os recursos eram da herança da mãe. Sem perspectivas do que possa ser ou ao que dedicar-se na vida, apenas administra seus gastos, pensando que talvez se tornasse um escritor do Renascimento.
Uma frase do livro nos dá uma idéia de Antony Patch: "parecia trágico nada querer - e, não obstante, ele queria algo, algo".
O avô, Adam Patch, dedicava-se à regeneração moral da sociedade, lutando contra a imoralidade, a bebida, os vícios.
Antony conhece a prima de um de seus amigos, Gloria Gilbert, casam-se e vivem conforme antes: de festas, gastos, bebidas. O pensamento seria conseguir logo a fortuna do avô, doente, então não haver necessidade de trabalhar.
Depois de tempos de idílio amoroso, logo a "magia passa e ficam apenas os amantes". Mas convivem, sempre em busca de companhias que não os deixassem sós, ou os tirasse da realidade, pela embriaguez constante.
Porém, quando morre, Adam Patch nada deixa para o neto, símbolo do que ele renegava: a devassidão.
Enquanto questionam o testamento de Adam na justiça, Antony e Glória vivem às migalhas do que restou, agora com o alcoolismo, sem os amigos das farras, sem o brilho da juventude de viver tudo o que pudessem intensamente, sem preocupações financeiras .
Assim é o desenrolar da trama. O desgaste do casamento, os laços de amizade, a moralidade, são temas que percebemos no livro que tem como cenário o início do século XX em Nova York.
Um bom livro.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

sábado, 30 de janeiro de 2010

"A segunda vitória" - Morris L. West

Após a Segunda Grande Guerra, tempo dos vencedores, a Força Aliada, iniciarem a reconstrução dos países vencidos, designando tropas militares para administrar povoados e cidades, impor ordem e garantir a paz restabelecida.
O tenente-coronel britânico Mark Hanlon é designado para o vilarejo de Bad Quellenberg, na Áustria, com o cargo de Comandante das Forças de Ocupação. Logo à chegada, seu companheiro de viagem, o Sargento Willis é assassinado, nem mesmo chegando ao povoado.
Inicia-se, ao se instalar, o processo de investigação para captura do assassino, revelando-se, então, uma rede de ligações entre o foragido, a polícia local e o silêncio cúmplice dos habitantes.
No livro, percebemos os traumas da guerra, os membros do Partido Nazista, agora sem poder, caçados e ainda com o gosto da guerra em suas bocas, o caos dos libertados presos dos campos de concentração, os feridos dos combates, a desesperança, os informantes da Força Aliada, seus benefícios, os "especuladores da guerra", que desviavam os valores roubados pelos Nazista do povo judeu, as fortunas acumuladas pela força paralela, os pais sem filhos, esposas sem maridos, as carências vindas do período negro da batalha, dramas humanos, favorecimentos, uso do poder... Todos esses aspectos são percebidos, usando personagens como o administrador do vilarejo, o médico, um advogado que acumulou fortuna usando seu prestígio, o chefe de polícia, que usava de o poder que possuía para conhecer a vida dos habitantes e fazer uso das informações em benefício próprio...
Um retrato da Áustria pós-guerra, quando ainda os campos de concentração não passavam de boatos, mas que a realidade posta aos olhos, quando colocados à frente dos sobreviventes esquálidos e doentes.
Faz-nos ver que a percepção de mundo de cada um é construída com base em suas experiências, a busca constante de algo que as preencha, filhos das escolhas ou levados pelas vicissitudes que a vida dita em seus caminhos.

Passagens:
"A maioria dos homens morre lentamente, sob as preocupações e canseiras da vida de todos os dias"

"...É desta forma que morrem as cidades e também os impérios. Não morrem geralmente de cataclismos esporádicos, como sejam a guerra, os terremotos, o fogo, as inundações, mas morrem, sim, do lento abandono vital dos membros em prol de uma intensificação da vida em redor do pequeno coração palpitante, cujos ventrículos são o mercado, os estabelecimentos, as tabernas, e igreja. O coração acaba também por morrer, tempos depois, visto que, quando os membros morrem, o corpo fica imóvel e inútil e a vida torna-se numa repetição de palpitações sem razão de ser, uma verdadeira perda de energia e um movimento que não conduz a futuro algum!"

"Um homem morto é uma tragédia, mas um milhão de mortos representa mais do que o pensamento humano pode alcançar. Plantem pinheiros à sua volta e, dentro de vinte anos, os cemitérios terão desaparecido. Deixem os jornalistas escrever o que quiserem durante o mesmo tempo e a verdade será enterrada sob uma montanha de palavras. É por isso que ninguém aprende as lições dadas pela História. A História,l de resto, já não existe... não passa de colunas quebradas e fragmentos dispersos pelo mundo. Tudo o resto são comentários e opiniões facciosas."

"Existe um limite para o que o corpo e o espírito humano podem aguentar. Qualquer homem pode enlouquecer de terror, de sofrimento ou mesmo devido ao súbito contacto com os males do mundo. Estes são casos extremos. Existem, contudo, milhares de degraus que descem para o vale da morte ou para as cavernas da loucura. A menor ferida deixa uma cicatriz nos tecidos. O menor choque deixa um risco na memória. As faculdades mentais são frequentemente afectadas por causas insignificantes. Eu, por exemplo, posso curar um inválido, mas não posso fazer andar direito e sem muletas. Da mesma forma. também me é impossível fazer que a mente inválida pense direito."

"Um homem pode lutar contra todos os inimigos, menos com os que vivem na sua própria casa."

"O homem é o animal mais triste do Mundo. O acto que lhe dá o maior prazer é também aquele que o aproxima mais da morte."


domingo, 24 de janeiro de 2010

Ler Freud é só para uns poucos 'Iniciados'?

O criador da Psicanálise, o médico Sigmund Freud, escreveu muito e escrevia muito bem. Suas "Obras Completas" compõem-se de 24 volumes e incluem ensaios relativos a aspectos da prática clínica, uma série de conferências que delineiam toda a teoria, além de monografias especializadas sobre questões religiosas e culturais.

Há quem considere que atualmente a tendência é a de que suas obras devam ser valorizadas pelo valor literário: "Não é à toa que nas principais universidades americanas as idéias de Freud estão saindo dos departamentos de medicina e psicologia e sobrevivem apenas nos cursos de literatura." (GRUMBAUM, Apud PASQUALI, 2010). De qualque forma, Freud ainda parece ser o autor de língua alemã cuja tradução é de longe a mais debatida e estudada.

Mesmo nós, simples mortais, podemos ler seus livros. Ler Freud não é apenas para uns poucos "iniciados". Alguns pouco familiarizados com a literatura psicanalítica podem apreciar suas obras. Freud escrevia de modo agradável e com muita clareza.

Durante o Mestrado, li alguns dos livros da coleção "Obras Completas": "Interpretações dos Sonhos I", Duas Histórias Clínicas ("O Pequeno Hans" e o "O Homem dos Ratos"), além de "O Futuro de Uma Ilusão, o Mal-Estar na Civilização e Outros Trabalhos" disponíveis na Biblioteca Central da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Inicialmente levada por uma necessidade acadêmica, pensava que seria uma tarefa difícil a leitura, porém me surpreendi como esta fluiu de forma relativamente fácil, principalmente na descrição e interpretação dos casos clínicos.

Claro, ler Freud não é como ler Agatha Christi ou Dan Brown, mas pode ser prazeroso também. Pode-se perceber o escritor impecável, seu talento narrativo e sua prosa rica. A leitura estética da obra de Freud já foi criticada como ingenuidade subjetiva, não tendo uma demarcação rígida entre
prosa científica e prosa artística. Mas já não se disse tantas vezes que a Psicanálise é uma "pseudociência"?

Referência usada nesta postagem: PASQUALI, S. Uma "Crítica" (Sic) a Psicanálise Freudiana... Disponível em: http://recantodasletras.uol.com.br/artigos/2043394. Acesso em 24 jan 2010.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010



Para os amantes dos livros, uma dica de um excelente site, onde você lê opiniões, resenhas, além de catalogar o que já leu, que pretende ler, que está lendo, trocar, dizer o que tem em sua estante.
Basta fazer o cadastro e navegar pelo mundo da literatura.
De quebra, às vezes algumas promoções são feitas entre os membros.
Estamos lá.
Vale a pena conferir.

"Angústia" - Graciliano Ramos

Luís da Silva, personagem-narrador do livro, é um funcionário público que vive só com uma empregada surda, num casebre em Maceió/AL, repleto de ratos, onde se vê e ouve a rotina dos vizinhos próximos. Órfão desde novo, desenvolve uma auto depreciação, um senso crítico exagerado, preso a sombras do passado, cheio de frustrações, onde figuras como o avô, o pai e outras presenças funestas povoam suas lembranças.
Aos trinta nos, fica noivo de Marina, a filha dos vizinhos, mas logo ela é seduzida por Julião Tavares, um rico comerciante. Entre várias obsessões, soma-se mais uma, o asco e ódio por Julião Tavares, por ter lhe tirado a noiva, engravidado-a e mando fazer aborto.
Os personagens que compõem a trama são construídos na miséria, sofrimento, um real quadro de angústia humana.
Compulsão por lavar as mãos, observador dos transeuntes, pessoas comuns que circulavam pelo bonde, pelas ruas, o livro consegue nos fazer caminhar pelo pensamento doentio e obsessivo, desde a descrição do contar de seus passos quando anda, até esmiuçar-se em detalhes observados desde os paralelepípedos da rua, pés e pernas, até os sentimentos refletidos nos que vê.
Luís da Silva é um personagem preso em si mesmo e em seus pensamentos, escravo de seu ódio e asco pelo mundo e pessoas. O ápice de sua paranóia dá-se com Julião Tavares, quando desenvolve a idéia de assassiná-lo por ter-lhe roubado a noiva. Porém, mesmo para uma mente desatinada, pensamentos ávidos e velozes, não resiste ao ato de matar. Ao final, o autor consegue que entremos na mente desvairada do personagem, numa profusão de imaginários desencontrados, auge da loucura.
Como o título bem diz, uma angústia.



"Como certos acontecimentos insignificantes tomam vulto, perturbam a gente! Vamos andando sem nada ver. O mundo é empastado e nevoento. Súbito uma coisa entre mil nos desperta a atenção e nos acompanha. (...) Quanto mais me vejo rodeado mais me isolo e entristeço. (...) A multidão é hostil e terrível. "

"O tapete vermelho da escada me dava impressão desagradável. Podia ser de outra cor. As luzes do farol mudavam de minuto a minuto, branca, vermelha, branca, vermelha. Porque não aparecia uma terceira cor? Aquilo era irritante, mas o farol me atraía. Pelo menos variava mais que a sentinela, tinha mais vida que a sentinela."

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Helen Keller: Lutando contra as trevas

Helen Keller (1880-1968)

"Lutando contra as trevas" é um livro sobre religião e espiritualidade, e sobre a americana Helen Keller. Não é apenas a fascinante história desta mulher, mas também uma reflexão sobre a busca de uma vida edificante, apesar da presença de grandes limitações físicas.

No prefácio, entende-se que se trata dos ensinamentos de Emanuel Swedenborg, filósofo e teólogo sueco, e sobre a influência que Helen recebeu pela leitura de sua obra. Ela conta, de forma tocante, como os escritos teológicos de Swedenborg mudaram sua vida, mas também revela muito sobre si mesma, sobre sua fé e sua força. Ela foi uma mulher cega que teve grandes realizações por causa da sua profunda espiritualidade. O livro é uma espécie de "autobiografia espiritual".

“Atraímos sobre nós sofrimentos desnecessários quando exageramos a extensão da nossa dor”

"Nunca se deve consentir em rastejar quando se sente um impulso para voar."

"No mundo maravilhoso do Espírito, senti-me tão livre como se estivesse no outro mundo."

"Eu, que sou cega, posso dar uma sugestão àqueles que vêem: usem seus olhos como se amanhã fossem perder a visão. E o mesmo se aplica aos outros sentidos. Ouça a música das vozes, o canto dos pássaros, os possantes acordes de uma orquestra, como se amanhã fossem ficar surdos. Toquem cada objeto como se amanhã perdessem o tacto. Sintam o perfume das flores, saboreiem cada bocado, como se amanhã não mais sentissem aromas nem gostos. Usem ao máximo todos os sentidos; gozem de todas as facetas do prazer e da beleza que o mundo lhes revela pelos vários meios de contacto fornecidos pela natureza. Mas, de todos os sentidos, estou certa de que a visão deve ser o mais delicioso."

"Apesar de o mundo estar cheio de sofrimento, ele também está cheio de superação. Meu otimismo, por isso, não repousa sobre a ausência do mal, mas na grata crença da preponderância do bem e no esforço contínuo de cooperação com o bem, para que ele prevaleça."

Após a leitura desse livro, foi preciso ler mais sobre a autora e sua vida. Helen Keller (1880-1968) foi cega, surda e muda durante toda sua vida. Aprendeu a ler aos 10 anos de idade.

Sempre chamava a atenção para a falta de apreciação e valorização dos próprios sentidos pelas pessoas ditas normais, algo que normalmente não se percebe quando se tem.

Foi educadora, escritora e advogada de cegos porque tinha grande poder de realização. Percorreu vários países promovendo campanhas para melhorar a situação dos deficientes visuais e auditivos.

Superou todos os obstáculos que lhe foram impostos, tornando-se uma notável personalidade do século XX. Graduou-se em Filosofia. Ao longo da vida recebeu títulos honorários de diversas instituições importantes, como a Universidade de Harvard, e foi nomeada membro da Legião de Honra da França.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

"Pollyana Moça" - Eleanor H. Potter


Pollyana continua em seu jogo, que chama "jogo do contente", onde a regra básica é achar em tudo que acontece motivos para sentir-se contente, coisas ruins ou boas. Claro, coisas boas não há porque não se sentir contente, mas nas ruins é que vê-se o sentido do tal joguinho. A novela retrata a personagem dos 13 até os 20 anos de idade e como sua postura diante da vida modificou - inconscientemente mesmo - a vida de outras pessoas.
O jogo já existe nesse livro, não foi criado com ele, pois é continuação de "Pollyana", lançado pela autora em 1913, sendo essa continuação em 1915.
A menina que, desenganada pelos médicos após um acidente,
com prognóstico que não mais andaria, passa um ano num sanatório, onde conhece Della Wetherby, que, encantada, leva-a para passar um inverno em casa de sua irmã, Mrs. Carew, personagem angustiada e depressiva, afetada pelo desaparecimento do sobrinho Jamie. Aí Pollyana opera suas transformações, acabando pela história de todos se entrelaçarem ao final.
Um livro infanto-juvenil de fácil leitura e pequeno, que deixa mensagens de alegria e, claro, contentamento.

domingo, 13 de dezembro de 2009

"A Confissão de Lúcio" - Mário de Sá-Carneiro

Novela de Mário de Sá-Carneiro, ambientada entre 1895 e 1913, ano que em o escritor-personagem Lúcio Vaz muda-se de Portugal para estudar direito em Paris, até sua ser libertado da prisão em 1913, após cumprir 10 anos de prisão pelo assassinato de Ricardo de Loureiro.
O romance trata de uma carta-confissão de Lúcio, quando diz-se inocente do crime que foi acusado e condenado. Relata o que se passou - como dita sua mente - tentando mostrar a verdade, como o personagem mesmo diz, "mesmo quando ela é inverossímil".
Inicia o relato falando de sua amizade com Gervásio Villa-Nova, artista, constrói o ambiente que convive em Paris, os artistas da época. Através de Gervásio, conhece Ricardo de Loureiro, poeta, por quem desenvolve uma sólida amizade. Com pensamentos perturbadores, angústias, Ricardo mostra que, para ter uma verdadeira amizade por alguém, terá de possuir quem é o alvo de sua ternura, ou seja, o amigo ou amiga a quem atribui tal sentimento.
Ricardo muda-se para Portugal e, passados alguns meses, com parca troca de correspondência, Lúcio também retorna ao seu país, sabendo que Ricardo já estava casado, por uma breve informação em uma de suas cartas.
Conhecendo Marta, a esposa de Ricardo, Lúcio sente atração, envolve-se em seu mistério, quando nada sabe-se dela, seu passado, o que pensa -e nem poderia ser diferente... e tornam-se amantes. Esse mistério que envolve a esposa do amigo o intriga e o leva à obsessão. Constatando que ela não possui apenas ele como amante, foge outra vez para Paris, onde se refugia longe de todos por seis meses.
Retorna a Portugal para mudar uma peça de teatro que escreveu e estava em ensaios para ser lançada brevemente.
Encontra Ricardo e o triângulo é revelado como sendo de conhecimento do amigo, tendo sido iniciado até pela sua própria ordem à esposa, pois assim teria o amigo, sendo ele e Marta um mesmo espírito.
A homossexualidade velada na novela nos faz ver a necessidade do personagem construir a imagem de Marta o lado feminino de Ricardo, o que nos dá um clima de mistério, fazendo o leitor voltar, ao fechar a última página, rever diálogos e sentimentos, para colher o sentido do assassinato e quem de fato foi morto, quem existia de fato, quem era fruto de imaginação, quem era os reais amantes.
Detalhei demais a resenha, o que não deixa de ser um erro, já que tira o brilho da leitura. Mas há de se concordar que tratando-se de uma novela com tantos sentidos dúbios, alguma impressão nas entrelinhas deve ser deixada.
Deixa-nos, ao final, a visão de que a mente do ser humano funciona como sendo um esquizofrênico que crê naquilo que deseja, que a realidade nada mais é que o imaginado de um desejo profundo, e que o acreditar-se inocente nada mais é que a máscara da culpa por não querer enxergar a realidade.
Uma boa leitura. Recomendamos.

Passagens:

"Gastar tempo é hoje o único fim da minha existência deserta. Se viajo, se escrevo - se vivo, num planeta, creia-me: é só para construir instantes. Mas dentro em pouco - já o pressinto - isto me saciará. E que fazer então? Não sei... não sei... Ah! que amargura infinita..."

"As dores morais transformam-se-me em verdadeiras dores físicas, em dores horríveis, que eu sinto materialmente - não no meu corpo, mas em meu espírito"

"Em face de todas as pessoas por quem adivinho ternuras assalta-me sempre um desejo violento de as morder na boca"

"Marta, porém, logo me fez calar com um beijo mordido..."

sábado, 5 de dezembro de 2009

"Caim" - José Saramago

Baseado em passagens do Antigo Testamento, Saramago reescreve a criação de Adão e Eva e crescimento de seus filhos, mais especificamente, Caim, personagem que, indo para o passado e futuro, parodia passagens bíblicas num estilo próprio do autor: toques ilusórios, humor sarcástico e contundente em relação à crença e à Igreja.
Relatos como a destruição de Sodoma e Gomorra, a provação de Abraão em dar seu filho Isaac como sacrifício, a queda dos muros de Jericó, entre outras, onde colhe as guerras, as mortes, incesto, vilania... Caim é levado a questionar o próprio crime (assassinou seu irmão por achar que este seria preferido do senhor), em face às violências que presenciou em suas andanças, castigo imposto pelo próprio senhor.
Em seu crime, Deus, o senhor, é dado como co-autor de sua desgraça, quando poderia ter evitado, tirando da cena do crime a arma que o fez matar o irmão Abel.
Caim revela, no decorrer do livro, um lado humano, bom caráter, o que o leva a analisar os atos do Criador, interpondo-se, ao final, nos planos da criação de uma no
va humanidade, tendo sido Noé o escolhido para recolher espécies de todos os seres para esse intento.
Também narra a figura do diabo, quando retrata a figura de e suas tentações por satã para provar sua devoção ao senhor.
Como Saramago é um escritor a quem ama-se ou odeia-se, não é um livro para ler quem não admira seu estilo, pois cairá nas teias do emaranhado de posições polêmicas que o escritor adota.
Porém, como somos inconfessáveis admiradoras do escritor português, indicamos a leitura, sendo este um bom livro, não excelente, apenas bom.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

"Esaú e Jacó" - Machado de Assis

Bem ao estilo de Machado de Assis, como se conversasse com o leitor, o livro trata de irmãos gêmeos, Pedro e Paulo Santos, filho de Natividade e Agostinho, tiveram seu futuro previsto por uma cabocla conhecida como detentora de poderes de adivinhar o futuro. Para os gêmeos, disse "cousas futuras", grandiosas; sobre o passado, que eles brigaram no útero da mãe.
As diferenças de personalidade, gostos, competições, foram presentes em todo o decorrer da trama, desde opiniões políticas até a concorrência pelo amor de uma única moça, Flora.
Época de Proclamação da República, também é um retrato de época, quando trata de relatos de opiniões, poderes políticos, abolição da escravatura. Todos emblemados nos discursos dos personagens. Entre eles, Aires, amigo da família, figura que alinhava como coadjuvante, mas que possui papel preponderante no livro, pois é dada a ele os relatos escritos, como se fossem achados em cadernos os registros que seguem o romance, mas narrado em terceira pessoa.
O título, Esaú e Jacó, faz referência a personagens bíblicos, também gêmeos, possuidores também de inimizades entre si.


Link para download: "Esaú e Jacó" Machado de Assis

terça-feira, 27 de outubro de 2009

"As vinhas da ira" - John Steinbeck

Época da grande depressão norte-americana, recessão econômica, a família Joad, como várias outras que cultivavam algodão em Oklahoma, estado do leste dos Estados Unidos, são expulsos de suas terras, ocasionados pela mecanização da agricultura e dívidas em bancos para pagar impostos. Seduzidos por um panfleto que propaga empregos na Califórnia, arranjam um meio de transporte e vão alimentar os sonhos, procurar trabalho. De início, planos, idealização de uma forma de vida mais humana... logo após, qualquer trabalho, não importa quanto pagasse, mesmo um trabalho quase escravo, contanto que pagasse o pão e a carne para não morrerem de fome.
No caminho, os mais velhos não resistem, morrem; outros, mais jovens, abandonam a luta familiar e seguem seus próprios rumos. Encontram a solidariedade, o senso de ajuda mútua que passa os outros que vivem a mesma situação. E são muitos que seguem o mesmo caminho em busca da sobrevivência. Famílias que alimentam desde a ganância
da venda de automóveis baratos, velhos, para deslocamento de famílias inteiras, até os fazendeiros que articulam preços insignificantes da colheita de frutas e algodão, aproveitando-se da oferta de mão-de-obra abundante e carente. Viver em condições sub-humanas, luta pela vida.
O livro inicia-se e percorre boa parte partindo de Tom Joad, um dos filhos que retorna da cadeia, depois de quatro anos preso por homicídio e volta para rever a família, encontrando o rancho que morava devastado e abandonado, a família prestes a viajar para a Califórnia.
Escrito em 1939, foi transferido em filme no ano de 1940, por John Ford.

Passagens:


"... esse livro. Já meu pai o tinha. (...) Escreveu o nome na capa inteira. E esse cachimbo, ainda cheirando a fumo forte. E esse quadro...(...) Acha que poderíamos levar esse cachorrinho de porcelana? (...) Não, acho que não. Aqui está a carta que meu irmão escreveu no dia anterior à morte dele. E aqui, um chapéu bem velho(...).

Como poderemos viver sem tudo isso que representa a nossa vida? Como poderemos viver sem tudo isso que recorda o nosso passado? Não, deixe tudo. Queime tudo."

"Caminhamos porque somos obrigados a caminhar. É o único motivo por que todos caminham. Porque querem alguma coisa melhor do que têm. E caminhar é a única oportunidade de se obter essa melhoria. Se querem e precisam, têm de ir buscar. É pena que se tenha de lutar tanto assim."

"Se tu, que tens tudo o que os outros precisam ter, puderes compreender isto, saberás também defender-se. Se tu souberes separar causas de efeitos, se tu souberes que Paine, Marx, Jefferson, Lênin foram efeitos e não causas, sobreviverás. Mas tu não poderás saber disto. Pois que a qualidade de "dono" mergulhaste sempre no "Eu" e sempre te isola do "nós"."

Link para download: As vinhas da ira - John Steinbeck

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

"O amor nos tempos do cólera" - Gabriel García Marquez

Ambienatado no Caribe, século XIX, o livro pode ser considerado um tratado sobre a velhice ou sobre um amor que dorou mais de meio século (mais exatamente 51 anos, 9 meses e 4 dias mais exatamente). Época em que o cólera era uma ameaça invisível, desconhecida, tal uma peste endêmica. Mas no livro os efeitos do cólera são confundidos com os sofrimentos de amor também, quando o sofrer não é apenas mental, mas físico também.
Florentino Ariza conhece Fermina Daza quando tem ainda seus 19 anos e ela 15, um amor que durou 3 anos de correspondências cheias de juras de amor e se encontraram apenas na entrega da primeira carta, na cobrança da resposta a essa carta e quando ela voltou da viagem que o pai a fez pazer para que se afasstasse de Florentino Ariza. Ele, empregado dos correios, sem atrativos financeiros ou físicos, jurou seu amor eterno, mesmo depois que ela, num encontro após sua volta, percebe que estivera enganada, que aquele homem que via, depois de tantas correspondências, nada tinha do que imaginava e nem supunha como poderia ter arranjado tal amor.
Florentino aquiesceu sua decisão, mas não abriu mão de seu amor, jurando eterno.
Fermina Daza casa-se com Doutor Jvenal Urbino e Florentino Daza, homem de linhagem e fortuna, para desespero de FLorentino Ariza, que toma a decisão de aguardar a morte de Doutor Juvenal Urbino com paciência, entregando-se a amores ocasionais para aplacar o sentimento que leva consigo e o persegue por mais de 50 anos, até o dia que o rival morre e ele reafirma seu amor a Fermina Daza na primeira noite de sua viuvez.
Quando falamos sobre um tratado sobre a velhice, referimo-nos que tratada do envelhecer, desde seu início, quando o fotógrafo Jeremiah de Saint-Amour comete suicídio, determinado a não chegar à velhice, já com seus 60 anos, num dia de Pentecostes, mesmo dia em que Doutor Juvenal Urbino morre, caindo de uma escada; ou ainda quando são jovens, vislumbre de um envelhecimento que imaginamos nunca acontecer com si próprio, mas com os outros. Essas percepções estão descritos em 53 anos de relato de cada personagem principal, os sentimentos, as mudanças de corpo e mente, as descobertas senis de casamentos longos e sem amor, o "cheiro de velhice", como ele o diz.
Fermina Daza, com 72 anos e Florentino Ariza com 76 se reencontram... mas para saber se continuam a paixão alimentada por Florentino Daza desde a juventude, fica nas mão dos leitores descobrirem. E vale a pena essa descoberta.
Excelente dica de leitura, livro que não poderia faltar a nenhum apaixonado pela literatura deixar de ler.

Passagens:

"...tomava algumas cooisas a cada hora, sempre às escondidas, porque em sua longa vida de médico e mestre foi sempre contrário a receitar paleativos para a velhice: achava mais fácil suportar as dores alheias que as próprias"

"Coisa bem diferente teria sido a vida para ambos se tivessem sabido a tempo que era mais fácil contornar grandes catástrofes matrimoniais do que as misérias minúsculas de cada dia. Mas se alguma coisa haviam aprendido juntos era que sabedoria nos chega quando já não nos serve para nada"

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

"Último tango em Paris" - Robert Alley

"Duas pessoas que cruzavam a ponte, movendo-se na mesma direção, (...) unidas numa cadência mútua, embora nem se conhecessem..."
Assim começa a história de Paul e Jeanne, um encontro casual, seu relacionamento anônimo, onde um não revela nada pessoal ao outro. Ele mais velho, experiência de vida, sua esposa tendo se suicidado poucas horas antes do encontro com Jeanne, que trata-se de uma bela e jovem parisiense, cheia de vitalidade.
Desse encontro, a paixão, a brutalidade da descoberta de um mundo devasso, profano, mas que seduz a jovem e distrái o mais experiente. No anonimato, apenas entregam-se ao desejo e apelos físicos de encontros fortuitos em um apartamento.
Em paralelo, a existência de cada um, os fantasmas de Paul, os mistérios que rodeiam o suicídio da esposa.
Onde fica o tango em Paris nisso tudo? Leiam o livro até o final que saberão.

Teve sua versão adaptada para cinema por Bernardo Bertolucci em 1973, que revogou seus direitos civis por 5 anos, pelas cenas de sodomia. Estrelado por Marlon Brando, Maria Schineider e Jean-Pierre Léaud.

sábado, 27 de junho de 2009

"A doçura do mundo" - Thrity Umrigar


"Você me ensina a dirigir?". A frase final que traduz quase o sentido do livro: tomar as rédeas da vida e decidir seu próprio destino, novos rumos, novas metas.
Tehmina Sethna, após a morte do marido Rustom, mudou-se para os Estados Unidos para viver com o filho, a nora e o neto, deixando a Índia, Bombaim, os amigos e suas origens. Sem a decisão final se permaneceria naquela terra nova, onde só estivera de visita a Sorab, o filho que se casara com uma americana, ou se voltaria à Bombaim. Essa dúvida permeia o livro, trazendo a discussão sobre sobrevivência e convivência sob o mesmo teto com a nora de costumes diferentes dos seus e o neto, Cookie, que crescia longe dos ditames indianos.
A visão do outro em relação aos seus costumes, que são alheios a si, apenas vistos por quem vê de fora, inconscientes, arraigados, e que, percebidos por outrem, tomam outra proporção; a presença ainda viva e forte do marido que a guiara por tantos anos, que agora a deixava à deriva, sem ter o comandante para guiar o timão do barco; a ingenuidade, bondade e amor que balizaram a vida de Tehmina, fazendo com que suas atitudes e pensamentos sejam ditados pelo que viveu, catando traços nos que cruzam seu caminho que justificam um ato de coragem, nunca de indiferença, raiva ou rancor... ... são algumas das tantas impressões que o livro nos deixa.
Até a decisão final se continua a viver nos EUA ou se volta à Índia, o livro desenvolve a rotina e a vida dos Sethna, desenrolando uma trama que proporciona ótima leitura, envolvente, emocionante, cativante.
Boa leitura!

Passagens:
"Quando os carregadores profissionais, com sua aparência fúnebre, chegaram para levantar o corpo dele e levá-lo à sua viagem final até o local onde os abutres descreviam voltas sobre o poço, Tehmina tivera de admitir que nem mesmo Rustom era capaz de vencer a morte, que a morte conseguira transformar seu rosto moreno e bronzeado numa espécie de giz cinzento(...), e que o relâmpago obscuro da morte era maior do que a energia elétrica que antes vibrara no corpo dele"

"A vida é feita mais do que a família imediata(...) - os vizinhos, mesmo aqueles que a gente não suporta; os amigos que a gente conhece há mais tempo do que conheceu o próprio marido; Sunil, o leiteiro que trapaceava, pondo água no leite que entregava na porta; Krishna e Parvati, o casal de sem-teto do outro lado da rua; Shiva, o mendigo sem pernas que vinha correndo feito um louco, no skate em que se sentava, para cumprimentar a gente com um sorriso (...). A vida é feita de todas as nossas rotinas."

"...Esse é um amor ilimitado, imorredouro, que não restringe, não aprisiona e nem retém, mas sai dançando à nossa frente como um espírito luminoso, que atrai a chama até que o sigamos, atravessando todo o universo"

"...por que essa relutância em enxergar Tara na plena complexidade de seu eu? Por que esse endurecimento do coração, esse desejo moralista de não reconhecer as raízes do comportamento precário daquela mulher com relação aos filhos? Por ventura Tehmina não vira com frequência, em seu trabalho de voluntária, como os maus-tratos perseguiam as gerações, como faziam seu pérfido veneno gotejar de um recipiente vazio para outro?"

terça-feira, 23 de junho de 2009

"O guardião de memórias" - Kim Edwards

Quando guardamos apenas conosco marcas de nossas vidas, segredos não revelados, mentiras contadas como verdades, ou elas nos envenenam ou nos fecha para o mundo. Essa é a sensação que o livro nos deixa, ao deitarmos a última página e finalizarmos a leitura.
Quando David Henry, na realidade David Henry MacCallister, fez o parto dos filhos gêmeos e tomou a decisão de mandar a filha nascida com Síndrome de Down para que fosse entregue numa instituição para deficientes mentais logo após o parto da esposa, ficando com o menino, perfeito e sem problemas, dizendo à esposa que a filha era natimorta, guardou a verdade para si. Não sabia que lidar com a “morte” da filha seria tão ou mais penoso para a esposa que aprender a lidar com a excepcionalidade da criança. Carregar o peso de saber da filha viva, ter suas próprias razões para tomar a decisão e não compartilhar, tomado pela angústia de levar segredos e memórias, transformou-o em escravo de suas próprias memórias e culpas.
A dolorosa perda da filha recém-nascida e sequer vista na percepção da mãe, suas fugas na bebida e em casos extraconjugais; o silêncio como construção da personalidade do filho...
Lembranças que se tornam marcos, lamentos contidos, silêncio como resposta.
Em paralelo, o crescimento de Phoebe, a menina que foi criada longe dos pais e que, apesar de ser portadora da Síndrome de Down, levou adiante sua vida, contrariando as expectativas de Henry, que julgou não viver tanto e com saúde.
A luta da mãe adotiva para incluir a filha em instituições públicas, o universo excepcional da criança que se torna mulher, capaz de um amor e credulidade que conquistavam e fazer-se amada mais ainda.
Esses são alguns dos temas que encontramos no livro, uma novela que percorre a vida dos personagens de 1964 a 1989.
Bom livro.

Passagens:
"...desde o nascimento dos filhos - Paul (...) e Phoebe, de algum modo presente pela ausência, apareendo-lhe em sonhos, parada no limiar invisível de cada momento -, Norah já não conseguia entender o mundo do mesmo jeito. Sua perda lhe deixara uma sensação de desamparo, que ela combaia preenchendo os dias."

"- A fotografia tem tudo a ver com segredos (...).Os segredos que todos temos e nunca revelamos.
- A música não é assim. (...)A música é como tocar a pulsação do mundo. A música está sempre acontecendo. Às vezes a gente consegue tocá-la por um momento e, quando consegue, sabe que tudo está ligado a tudo."

"Não se pode deter o tempo. (...) Não de pode captar a luz. Tudo que a gente pode fazer é virar o rosto para cima e deixar a chuva cair."

sábado, 20 de junho de 2009

Eric Clapton - a autobiografia


O livro escrito pelo pop star Eric Clapton, por tratar-se de uma autobiográfico não há muito o que "resenhar". Já diz o que é e de que se trata: vida, carreira, experiências pessoais de Eric Clapton, de sua infância, passando pela ascenção no mundo artístico, como guitarrista, depois sua carreira solo, o uso de drogas, o envolvimento com várias mulheres, famosas ou não... o mundo que se esconde por trás da fama e brilho de uma estrela da música mundial pelos olhos de um de seus integrantes.
O que fascinou no livro não foi acompanhar a vida
pessoal do artista, mas ter conhecimento de como nasceram tantas músicas que admiramos, gostamos, transporta-nos a outro universo, como por exemplo "Layla", "Cocaine", "Tears In Heaven", "Tearing us apart", "Holy mother", "My father's eyes", entre tantas outras.
Além de
acompanhar o nascimento dessas canções, perceber a influência de Muddy Watters e essa presença ser sempre lembrada em todo o livro, o que é um deleite para quem se encanta com o trabalho desse cantor de blues americano.
Para quem conhece a arte de tocar violão ou guitarra, a forma com que ele descreve sua maneira de dedilhar, como desenvolveu sua técnica, o andar entre trastes e cordas como se fosse uma teoria própria, mas para quem conhece, torna-se uma viagem.
Fora isso, o livro é previsível, não surpreende, num eterno retorno à frase "o melhor momento de minha vida", "a melhor fase que passei", "o maior emoção que senti", "nunca fiquei tão extasiado"... ou seja, foram vários então.
Mas compensa ser lido, pois torna visível que a paixão por algo faz com que se torne possível qualquer
objetivo a que se proponha. No caso de Clapton, a música.