Sábado, 27 de Junho de 2009

"A doçura do mundo" - Thrity Umrigar


"Você me ensina a dirigir?". A frase final que traduz quase o sentido do livro: tomar as rédeas da vida e decidir seu próprio destino, novos rumos, novas metas.
Tehmina Sethna, após a morte do marido Rustom, mudou-se para os Estados Unidos para viver com o filho, a nora e o neto, deixando a Índia, Bombaim, os amigos e suas origens. Sem a decisão final se permaneceria naquela terra nova, onde só estivera de visita a Sorab, o filho que se casara com uma americana, ou se voltaria à Bombaim. Essa dúvida permeia o livro, trazendo a discussão sobre sobrevivência e convivência sob o mesmo teto com a nora de costumes diferentes dos seus e o neto, Cookie, que crescia longe dos ditames indianos.
A visão do outro em relação aos seus costumes, que são alheios a si, apenas vistos por quem vê de fora, inconscientes, arraigados, e que, percebidos por outrem, tomam outra proporção; a presença ainda viva e forte do marido que a guiara por tantos anos, que agora a deixava à deriva, sem ter o comandante para guiar o timão do barco; a ingenuidade, bondade e amor que balizaram a vida de Tehmina, fazendo com que suas atitudes e pensamentos sejam ditados pelo que viveu, catando traços nos que cruzam seu caminho que justificam um ato de coragem, nunca de indiferença, raiva ou rancor... ... são algumas das tantas impressões que o livro nos deixa.
Até a decisão final se continua a viver nos EUA ou se volta à Índia, o livro desenvolve a rotina e a vida dos Sethna, desenrolando uma trama que proporciona ótima leitura, envolvente, emocionante, cativante.
Boa leitura!

Passagens:
"Quando os carregadores profissionais, com sua aparência fúnebre, chegaram para levantar o corpo dele e levá-lo à sua viagem final até o local onde os abutres descreviam voltas sobre o poço, Tehmina tivera de admitir que nem mesmo Rustom era capaz de vencer a morte, que a morte conseguira transformar seu rosto moreno e bronzeado numa espécie de giz cinzento(...), e que o relâmpago obscuro da morte era maior do que a energia elétrica que antes vibrara no corpo dele"

"A vida é feita mais do que a família imediata(...) - os vizinhos, mesmo aqueles que a gente não suporta; os amigos que a gente conhece há mais tempo do que conheceu o próprio marido; Sunil, o leiteiro que trapaceava, pondo água no leite que entregava na porta; Krishna e Parvati, o casal de sem-teto do outro lado da rua; Shiva, o mendigo sem pernas que vinha correndo feito um louco, no skate em que se sentava, para cumprimentar a gente com um sorriso (...). A vida é feita de todas as nossas rotinas."

"...Esse é um amor ilimitado, imorredouro, que não restringe, não aprisiona e nem retém, mas sai dançando à nossa frente como um espírito luminoso, que atrai a chama até que o sigamos, atravessando todo o universo"

"...por que essa relutância em enxergar Tara na plena complexidade de seu eu? Por que esse endurecimento do coração, esse desejo moralista de não reconhecer as raízes do comportamento precário daquela mulher com relação aos filhos? Por ventura Tehmina não vira com frequência, em seu trabalho de voluntária, como os maus-tratos perseguiam as gerações, como faziam seu pérfido veneno gotejar de um recipiente vazio para outro?"

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

"O guardião de memórias" - Kim Edwards

Quando guardamos apenas conosco marcas de nossas vidas, segredos não revelados, mentiras contadas como verdades, ou elas nos envenenam ou nos fecha para o mundo. Essa é a sensação que o livro nos deixa, ao deitarmos a última página e finalizarmos a leitura.
Quando David Henry, na realidade David Henry MacCallister, fez o parto dos filhos gêmeos e tomou a decisão de mandar a filha nascida com Síndrome de Down para que fosse entregue numa instituição para deficientes mentais logo após o parto da esposa, ficando com o menino, perfeito e sem problemas, dizendo à esposa que a filha era natimorta, guardou a verdade para si. Não sabia que lidar com a “morte” da filha seria tão ou mais penoso para a esposa que aprender a lidar com a excepcionalidade da criança. Carregar o peso de saber da filha viva, ter suas próprias razões para tomar a decisão e não compartilhar, tomado pela angústia de levar segredos e memórias, transformou-o em escravo de suas próprias memórias e culpas.
A dolorosa perda da filha recém-nascida e sequer vista na percepção da mãe, suas fugas na bebida e em casos extraconjugais; o silêncio como construção da personalidade do filho...
Lembranças que se tornam marcos, lamentos contidos, silêncio como resposta.
Em paralelo, o crescimento de Phoebe, a menina que foi criada longe dos pais e que, apesar de ser portadora da Síndrome de Down, levou adiante sua vida, contrariando as expectativas de Henry, que julgou não viver tanto e com saúde.
A luta da mãe adotiva para incluir a filha em instituições públicas, o universo excepcional da criança que se torna mulher, capaz de um amor e credulidade que conquistavam e fazer-se amada mais ainda.
Esses são alguns dos temas que encontramos no livro, uma novela que percorre a vida dos personagens de 1964 a 1989.
Bom livro.

Passagens:
"...desde o nascimento dos filhos - Paul (...) e Phoebe, de algum modo presente pela ausência, apareendo-lhe em sonhos, parada no limiar invisível de cada momento -, Norah já não conseguia entender o mundo do mesmo jeito. Sua perda lhe deixara uma sensação de desamparo, que ela combaia preenchendo os dias."

"- A fotografia tem tudo a ver com segredos (...).Os segredos que todos temos e nunca revelamos.
- A música não é assim. (...)A música é como tocar a pulsação do mundo. A música está sempre acontecendo. Às vezes a gente consegue tocá-la por um momento e, quando consegue, sabe que tudo está ligado a tudo."

"Não se pode deter o tempo. (...) Não de pode captar a luz. Tudo que a gente pode fazer é virar o rosto para cima e deixar a chuva cair."

Sábado, 20 de Junho de 2009

Eric Clapton - a autobiografia


O livro escrito pelo pop star Eric Clapton, por tratar-se de uma autobiográfico não há muito o que "resenhar". Já diz o que é e de que se trata: vida, carreira, experiências pessoais de Eric Clapton, de sua infância, passando pela ascenção no mundo artístico, como guitarrista, depois sua carreira solo, o uso de drogas, o envolvimento com várias mulheres, famosas ou não... o mundo que se esconde por trás da fama e brilho de uma estrela da música mundial pelos olhos de um de seus integrantes.
O que fascinou no livro não foi acompanhar a vida
pessoal do artista, mas ter conhecimento de como nasceram tantas músicas que admiramos, gostamos, transporta-nos a outro universo, como por exemplo "Layla", "Cocaine", "Tears In Heaven", "Tearing us apart", "Holy mother", "My father's eyes", entre tantas outras.
Além de
acompanhar o nascimento dessas canções, perceber a influência de Muddy Watters e essa presença ser sempre lembrada em todo o livro, o que é um deleite para quem se encanta com o trabalho desse cantor de blues americano.
Para quem conhece a arte de tocar violão ou guitarra, a forma com que ele descreve sua maneira de dedilhar, como desenvolveu sua técnica, o andar entre trastes e cordas como se fosse uma teoria própria, mas para quem conhece, torna-se uma viagem.
Fora isso, o livro é previsível, não surpreende, num eterno retorno à frase "o melhor momento de minha vida", "a melhor fase que passei", "o maior emoção que senti", "nunca fiquei tão extasiado"... ou seja, foram vários então.
Mas compensa ser lido, pois torna visível que a paixão por algo faz com que se torne possível qualquer
objetivo a que se proponha. No caso de Clapton, a música.

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

"A megera domada" - William Shakespeare

Clássico da literatura, a peça de teatro de Shakespeare "A megera domada" é algo que não pode deixar de ser lido.
Trata-se do casamento de Catarina, a filha mais velha de Batista, que precisa ser desposada antes, para que sua irmã mais moça, Bianca, case-se com algum dos vários pretendentes à sua mão. Porém, apesar de bela, a personalidade forte e a rudeza da primeira filha afasta qualquer candidato à sua mão.
Um do pretendentes de Bianca, Lucêncio, sabendo do dote que Catarina levará ao casar-se, convence Petrúquio a fazê-lo, pois que esse necessita do valor que receberá e, no trato, assemelha-se à personalidade de Catarina. Aliado a estratégia traçada, arma um plano para conquistar Bianca, disfarçando-se de professor e fazendo de seu criado ele mesmo, para apresentar-se a Batista como mais um pretendente, enquanto encontra-se livre para fazer a corte à amada.
A sagacidade de Petrúquio para "domar" a esposa não apenas nos faz rir, como analisar que o comportamento humano é condicionado àquilo que é imposto como castigo, mas dito que feito por amor.
À parte a trama do livro, a edição que conta com a tradução de Millôr Fernandes tira o rebuscado dos diálgos, preservando um humor contemporâneo e divertido de se ler.
Como o tradutor mesmo diz, "Não se pode traduzir sem o amplo conhecimento da língua traduzida mas, acima de tudo, sem o fácil domínio da língua para a qual se traduz. (...) Não se pode traduzir sem ser escritor, com estilo próprio, originalidade sua, senso profissional. Não se pode traduzir sem dignidade".
Essa edição, publicada pela Editora L&PM Pocket é deleitar-se com Sheakespeare e viajar na mente de Fernandes também.

Sábado, 13 de Junho de 2009

"Para sempre ou nunca mais" - Raymond Chandler

Livro policial, tendo como protagonista Philip Marlowe, detetive particular, contratado para seguir Eleanor King (ou Betty Mayfield ou Sra. Kingsolving), onde não lhe foi revelado as razões de informar os passos ou destino da mesma.
Profissional resignado, cínico, irônico, Malowe envolve-se na missão que deveria ser investigativa, emaranhando-se na trama, buscando, depois de cumprir sua tarefa de informar o paradeiro de seu objeto de trabalho, voltando à cena para descobrir o que haveria de mistério e quem seria Eleanor King.
Assassinato do provável amante de Eleanor, personagens escusos de Esmeralda, cidade onde ela foi refugiar-se, outros investigadores que estavam a procura dela, são algumas dos mistérios do livro.
Romance policial de qualidade, curto, fácil leitura.

Passagens:

"O bom senso é como o jogador reserva que poderia ter feito a bola do jogo se estivesse no time. Mas ele nunca está. Ele assiste a tudo da arquibancada, uma garrafinha no bolso. O bom senso é um homenzinho num terno cinza, que jamais erra uma conta. Mas é sempre o dinheiro de outra pessoa que ele está contando"

"Muitas poucas coisas dão alegria a um homem de minha idade. Um beija-flor, o modo extraordinário como se abre um botão de estrelícia. Por que em certo ponto de seu florescimento o botão se volta para os ângulos corretos? (...)Que estranha divindade criou um mundo tão complicado quando poderia, presumivelmente, ter feito um tão simples? (...) Há sofrimentos demais no mundo, quase sempre de inocentes."


Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

Virgínia Woolf fala sobre o sentir-se doente

Virginia Woolf escreveu:

"Considerando como a doença é comum, como é tremenda a mudança espiritual que traz, como é espantoso quando as luzes da saúde se apagam, as regiões por descobrir que se revelam, que extensões desoladas e desertos da alma uma ligeira gripe nos faz ver, que precipícios e relvados pontilhados de flores brilhantes uma pequena subida de temperatura expõe, que antigos e rijos carvalhos são desenraizados em nós pela ação da doença, como nos afundamos no poço da morte e sentimos as águas da aniquilação fecharem-se acima da cabeça e acordamos julgando estar na presença de anjos e harpas quando tiramos um dente, vimos à superfície na cadeira do dentista e confundimos o seu "bocheche... bocheche", com saudação da divindade debruçada no chão do céu para nos dar as boas-vindas - quando pensamos nisto, como tantas vezes somos forçados a pensar, torna-se realmente estranho que a doença não tenha arranjado um lugar, juntamente com o amor, as batalhas e o ciúme, por entre os principais temas da literatura".

Este é um trecho de seu livro "Acerca de estar doente".

Virginia Woolf foi uma das mais importantes escritoras britânicas. Ela sofreu de doença mental desde a adolescência, apresentando episódios depressivos associados ocasionalmente a sintomas psicóticos (alucinações auditivas). Durante as fases depressivas ficava acamada, recusando qualquer alimento, com idéias delirantes de culpa e de auto-referância, além de sintomas somáticos (intensas cefaléias que a incapacitavam para qualquer atividade intelectual).

Em 1941, após diversas tentativas de suicídio, num episódio grave de depressão, Virginia Woolf se afogou em um rio, no Sussex, Inglaterra.


Contempla as palavras!


(...) “Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse, pela resposta, pobre ou terrível, que lhes deres: Trouxeste a chave? (...)

(Procura da Poesia – Carlos Drumond de Andrade)

Sexta-feira, 1 de Maio de 2009

Relatividade


Einstein procurou explicar de forma bem-humorada sua complexa teoria da relatividade para leigos com esta frase: “Quando você está cortejando uma moça simpática, uma hora parece um segundo. Quando você se senta sobre carvão em brasa, um segundo parece uma hora. Isso é a relatividade.”

Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

O homem é a única criatura que precisa ser educada


“O homem é a única criatura que precisa ser educada” é uma frase de Immanuel Kant (1724-1804), um dos grandes pensadores do Iluminismo.

O Homem não se define como tal no próprio ato de seu nascimento, pois nasce apenas como criatura biológica que precisa se transformar, se recriar como Ser Humano. Ao nascer, esse ser não se encontra preparado para se orientar no processo de sua própria existência. É ainda Kant quem reafirma que "o homem não pode se tornar homem senão pela educação".

Portanto, a formação humana resulta de um ato intencional, que transforma a criatura biológica em um novo ser, um ser de cultura. Esse ato denomina-se Educação.

Mas educar não é somente isso. É também "acionar os meios intelectuais de cada educando para que ele seja capaz de assumir o pleno uso de suas potencialidades físicas, intelectuais e morais para conduzir a continuidade de sua própria formação. Esta é uma das condições para que ele se construa como sujeito livre e independente".

A Educação possibilita a cada indivíduo adquirir a capacidade de auto-conduzir seu próprio processo formativo.

[RODRIGUES, N. Educação: da formação humana à construção do sujeito ético. Educ. Soc. 22 (76): 232-257, 2001]

Sábado, 18 de Abril de 2009

Comunicar é partilhar sentido

"Comunicar não é de modo algum transmitir uma mensagem ou receber uma mensagem. Isso é a condição física da comunicação, mas não é comunicação. (...) Comunicar é partilhar sentido".
(Pierre Lévy)

Sexta-feira, 10 de Abril de 2009

"Frankenstein", de Mary Shelley

A obra "Frankenstein", da inglesa Mary Shelley, é considerada a primeira obra de ficção científica, gênero literário que se volta para o mundo da ciência. Nesta obra, faz-se uma crítica à ambição científica.

Escrita em 1818, representa o gênero gótico de romances que marcou a segunda metade do século XVIII na Inglaterra. Mary Shelley condena o cientista ambicioso e critica a Ciência que deflagrou a sede de Victor Frankestein. Victor considerava a matemática e os conhecimentos a ela relacionados como uma base segura, da qual não poderia advir mal nenhum. Shelley critica essa fé cega na suposta neutralidade da Ciência.

Uma noite, ao testemunhar a destruição de um carvalho por um poderoso raio, o jovem Victor passa, através da explicação de um especialista, a tomar conhecimento da eletricidade. Após esse episódio, ele abandona os estudos aos quais vinha se dedicando, e assim narra tal mudança:
...abandonei de pronto as minhas prévias ocupações; desembaracei-me da história natural e toda a sua gênese, como se fossem criaturas disformes e abortivas ... . Nesse estado de espírito, eu me dediquei à matemática e aos ramos de estudo dela derivados, por estarem apoiados em sólidos alicerces e, portanto, serem dignos de minha consideração.
...Em retrospecto, me parece que esta mudança quase milagrosa em minha inclinação e vontade foi sugestão imediata do meu anjo da guarda — o último esforço do espírito de preservação para impedir a tormenta que mesmo naquele momento formava-se nos céus, pronta para me atingir. ... mas foi em vão. O destino era por demais potente, e as suas leis imutáveis haviam decretado minha mais absoluta destruição
(Shelley, 1982, p. 239).

Não se pode deixar de lembrar que, em Frankenstein, as mulheres são absolutamente passivas e se deixam destruir sem resistência pela ambição masculina. Ocorre um embate do desejo de auto-afirmação e autonomia masculina com a necessidade feminina de construir relações, onde o primeiro aspecto destrói o segundo.

Em Frankenstein, a atribuição da esfera intelectual, ou racional, a Victor, e da sentimental a Elizabeth, está clara no trecho onde o protagonista compara seu temperamento, quando criança, ao da futura noiva:
Eu era mais calmo e filosófico que minha companheira; meu temperamento, no entanto, não era tão flexível. ... Eu me deliciava na investigação dos fatos relacionados ao mundo real; ela se ocupava seguindo as criações aéreas dos poetas. O mundo era, para mim, um segredo, que eu desejava desvendar; para ela era um vácuo, que procurava povoar com seus próprios devaneios imaginários" (Shelley, 1982, p. 30).

Segunda-feira, 30 de Março de 2009

Psicossomática

“Quando o sofrimento não pode expressar-se pelo pranto, ele faz chorarem os outros órgãos.”
(William Motsloy)

Domingo, 29 de Março de 2009

Senso Crítico

Um bom livro faz pensar.
Através do estudo e análise de textos da mídia e do senso comum, o autor discute o sentido do raciocínio e da argumentação, os usos e abusos da lógica, a leitura nas entrelinhas e o apelo das falácias. É um livro voltado especialmente para estudantes de Metodologia Científica e pesquisas em geral.

O senso comum baseia-se em conhecimentos espontâneos e intuitivos, uma forma de conhecimento que fica no nível das crenças. No entanto há momentos em que as crenças se tornam problemáticas, aí o homem começa a pensar e surgem novas respostas, é neste momento que surge a Ciência.

Nossos estilos informais de comunicação e raciocínio (ou modo de pensar) habitualmente interferem com o trabalho na ciência, onde as regras do jogo são diferentes. As questões são resolvidas de maneiras diversas na vida cotidiana e na ciência e, por isso, muitos iniciantes passam por fases de frustração enquanto estão sendo ressocializados. Nas ciências humanas, normalmente apenas os alunos de pós-graduação recebem esta reeducação e, mesmo assim, somente quando elaboram suas dissertações.

As comunicações que recebemos diariamente, tanto na vida cotidiana como na ciência, exigem que transcendamos a lógica cujas regras, por mais úteis que sejam, tratam o raciocínio como se fosse algo que pudesse ser ensinado de forma automática, sem o uso da inteligência, sem intuições, sem reflexão sobre o significado das idéias consideradas.

O autor mostra com exemplos que para pensar criticamente, é necessário ser perspicaz, enxergar além da superfície, questionar onde não há perguntas já formuladas, e ver facetas que os outros não estão considerando.

“O bom senso é, entre todas as qualidades humanas, aquela distribuída mais por igual, pois todo mundo se acha tão dotado dele que até as pessoas mais exigentes nos demais assuntos geralmente não desejam ter uma porção maior desta qualidade do que já possuem”. (René Descartes, Discurso Sobre o Método).

CARRAHER, D. W. Senso Crítico: do dia-a-dia às ciências humanas. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2002.

Quinta-feira, 26 de Março de 2009

Fatos e Interpretações


"Contra o positivismo que pára perante os fenômenos e diz: 'Há apenas fatos', eu digo: 'Ao contrário, fatos é o que não há: há apenas interpretações' "

(Nietzsche)

Segunda-feira, 23 de Março de 2009

"Caravana de destinos" - John Steinbeck

Livro que depois foi publicado com o título "A rua das ilusões perdidas", Steinbeck retrata Cannery Row, uma cidade na Califórnia, ambiente inserido na década de 30, logo após a primeira Grande Guerra, onde não se tem um personagem principal, mas todos são igualmente participantes, no inconfundível estilo "steinbeckiano", onde a bondade, a solidariedade, ingenuidade, mansidão do ser humano são explorados.
No livro encontramos Mack e seus companheiros de desventuras, que levam a vida de pequenos furtos, trabalhos esporádicos, mas que fazem o bem, até os roubos são justificados e bem aceitos; Dora e suas "meninas", cumprindo seus papéis de meretrizes, mas que são capazes de ajudar e sabem ser aceitas na cidade; Lee Chong, o dono da loja da cidade, que até a ambição que possui é velada pela bondade e ajuda ao próximo; Doc, o cientista que coleta animais para abastecer os laboratórios das outras cidades, admirado e querido por todos, capaz de conter a ira, vendo a intenção pelo que provocou tal sentimento; Os Malloy, a cadela Darling...
Enfim, personagens que se entrelaçam e cumprem seu papel de viver pelo bem, sem maldade, nascidos de suas histórias trágicas e solitárias, mas que não deixaram a docilidade do viver bem e fazer o bem.
Para os admiradores de Steinbeck (como nós), um livro que não pode deixar de ser lido.

Passagens:
... enquanto a maioria dos homens busca de pleno contentamento acaba destruindo a si mesmos e ficam além do objetivos, Mack e seus amigos procuravam contentamento quase construindo a si mesmos e ficando muito além do objetivo...

[O bordel] solene de Dora Flood [é] uma casa de prazeres decente, limpa, honesta, antiquada, (...) um clube virtuoso e inflexível, (...) tornou-se odiada pela irmandade distorcida e lasciva de puritanas casadas, cujos maridos respeitam o lar, mas não o apreciam muito.

Todos conheciam Doc e lhe deviam de uma forma ou de outra. E não havia quem não pensasse nele sem murmurar em seguida: "preciso fazer alguma coisa por Doc..."

É muito fácil dizer "o tempo tudo cura, isso também vai passar, as pessoas esquecerão" e outras coisas no gênero, quando não se está diretamente envolvido. Mas quando se está, o tempo parece que não passa, as pessoas não esquecem e se fica no meio de uma situação inalterável.

Sexta-feira, 20 de Março de 2009

"Cabine para mulheres " - Anita Nair

Índia, final da década de 90. Insatisfeita com sua vida, Aklandeswari, ou apenas Akhila, indiana de 45 anos, solteira, sem filhos, provedora da sua família após a morte de seu pai, quando tornou-se responsável pelos três irmãos menores e a mãe, decide fazer uma viagem de trem num vagão apenas para mulheres, acreditando que aquelas vidas que encontrará ali dariam respostas a seus questionamentos e então decidiria seu próprio destino.
Ela poderia, como mulher, viver sozinha, sem marido ou filhos, ou teria de continuar com o peso da família em sua responsabilidade, sendo essa sua obrigação?

Então divide o vagão com outras seis mulheres, seis mundos, seis histórias, contadas cada uma em primeira pessoa, intercalando com sua própria história. Ali, as mulheres, casadas em sua maioria, com filhos ou não, traçam um retrato da realidade feminina no mundo masculino indiano, suas percepções de vida, paralelos de opiniões, sofrimentos, alegrias. Um mundo dos maridos, dos pais e filhos. Dá-se a narrativa os efeitos do tempo, as alterações que ele opera nos sentimentos e relacionamentos. Sonhos que se desfazem e transformam, vidas que são tocadas pelo tempo e seus efeitos.
Akhila percebe suas próprias fraquezas, erros, decepções, sua existência dedicada à família, esquecendo-se de si.
Busca naquelas mulheres respostas às perguntas que deseja saber: é possível viver sozinha e ser feliz ou mesmo tempo, sem um universo masculino que o norteie?
A resposta dá-se ao final da narrativa, com a decisão que toma.
Boa leitura!

Passagens e frases:
Como é que alguém sabe se ama, odeia ou é simplesmente indiferente a um homem? Como mede o que se sente? Com um tubo de ensaio ou uma pipeta? Com uma espátula ou balança de precisão?

O amor acena com um raro buquê. Pede-lhe que beba dele. E, então, queima a língua, os sentidos. O amor cega. O amor enlouquece. O amor afasta a razão das idéias. O amor mata. O amor é álcool metílico fingindo ser álcool etílico.

Todas essas mulheres (...) estão tentando dar algum sentido à sua vida falando sobre ela. E eu achando que era a única que buscava definir a realidade de minha vida. Elas precisam justificar seus fracassos, tanto quanto eu. Quando nos atiramos à trama das vidas, estamos tentando nos sentir menos culpados pelo que somos e pelo que nos tornamos.

...Mas acontece que o coração é uma pulseira de cristal. Um minuto de descuido e ele se espatifa... (...) E, no entanto, continuamos usando pulseiras de cristal. Cada vez que se quebram, compremos outras, na esperança de que durem mais que as anteriores. Como as mulheres são tolas! Devíamos usar pulseiras de granito e transformar nosso coração nesse mesmo material. Mas elas não refletiriam a luz desse jeito tão bonito, nem soariam com a mesma alegria...

O que é o amor, senão uma necessidade disfarçada?

Terça-feira, 17 de Março de 2009

Os degraus - Mário Quintana

Sábado, 28 de Fevereiro de 2009

Incentivo à leitura - curtinho. Veja!

video

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=iRDoRN8wJ_w

Domingo, 22 de Fevereiro de 2009

"A voz de Deus" - Agmar Resende

Vivências e visões da vida sob a ótica sensível da escritora mineira. Agmar Resende consegue fazer um livro em que encontramos humor onde nem se poderia ver humor, adicionado a histórias escritas em linguagem fácil, comentando e acrescentando, surpreendendo e trazendo o pensamento a funcionar.

Com histórias reais, postas também como depoimentos de pessoas reais do seu convívio ou alguns outros que passaram pelo tema dor e sofrimento, faz o encaixe sobre o assunto, sem perder o fio a qu
e se propõe o livro: desconstrução da dor, da perda, do sofrimento.

Apesar de contuntende, o tema abordado não peca em excesso de palavras óbvias, como as auto-ajudas que lotam as livrarias. Viaja em pontos de vista pessoais, elegendo e aceitando seus ídolos, expondo suas dúvidas, analisando o outro que passa pela sua vida e pergunta "não existe uma dessas em sua vida?". E existe. Isso nos leva a sorrir, além da emoção normal encontrada nos depoimentos inseridos.

Ótima leitura!

Link para encontrar o livro: "A voz de Deus" - Agmar Resende


"Os coxos dançam sozinhos" - José Prata

Livro que constrói a mente de um psicopata, o policial corrupto Porto Brandão, desde suas amarrações com a infância de abusos e violências, até sua visão fria e sarcástica do mundo em que vive.
O pensamento velado, narrado em primeira pessoa, com tiradas irônicas e planejadas, a mente de um assassino em série. Mata suas vítimas, prostitutas loiras, gordas, porém é surpreendido por outro personagem que visita sua cena de crime a as imita.
Um final que surpreende aos menos atentos, mas que juntam-se como peças de um quebra-cabeças.
Levar-se pela viagem do psicopata é sentir a angústia por traz de uma vida desregrada e solitária, imaginando que o medo deixa de existir, dando lugar apenas ao ódio e ao que acredita ser verdade. O personagem Brandão recompõe inteligência, sagacidade, loucura, narcisismo.
Um livro que lê-se de um fôlego só. Apenas há de acostumar-se às gírias portuguesas, que pouco conhecemos em nossa língua, bem como palavras traduzidas de forma literal, que deixa-nos a matutar a que se refere. Mas nada que a lógica da narrativa não esclareça.
Esse é para quem aprecia policiais e dramas psicológicos.
Recomendamos.

Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009

Escrever é esquecer

Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de idéias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois ninguém fala em verso.
(Fernando Pessoa)

Sábado, 31 de Janeiro de 2009

Lispectoriando...


"Eu não sou tão triste assim, é que hoje eu estou cansada."

"E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior que eu mesma, e não me alcanço."

"Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo."

"Eu sou mais forte do que eu."

"Divertir os outros, um dos modos mais emocionantes de existir."

"Senti que podia. Fora feita para libertar. Libertar era uma palavra imensa, cheia de mistérios e dores."

"Saudade é um dos sentimentos mais urgentes que existem."

"Sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro. Sou um coração batendo no mundo."

"A gente escreve como quem ama."

"Gosto dos venenos os mais lentos!
As bebidas as mais fortes!
Dos cafes mais amargos!
E os delirios mais loucos.
Voce pode ate me empurrar de um penhasco que eu vou dizer:
E daí
eu adoro voar!!!"

"Saudade é um pouco como fome.
Só passa quando se come a presença.
Mas às vezes a saudade é tão profunda
que a presença é pouco:
quer-se absorver a outra pessoa toda.
Essa vontade de um ser o outro
para uma unificação inteira é
um dos sentimentos mais urgentes que
se tem na vida.
"

(Clarice Lispector)

Sábado, 17 de Janeiro de 2009

A literatura antecipa a vida...

"A literatura antecipa sempre a vida. Não a copia, amolda-a aos seus desígnios."

(Oscar Wilde)

Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2009

Publicação do livro de Semiologia Médica "Exame Clínico do Adulto"

Com muito prazer, informamos que está sendo publicado em breve nosso livro de Semiologia Médica "Exame Clínico do Adulto" (Rilva Sousa-Muñoz et al.), pela Editora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

Este livro é resultado de um projeto didático-pedagógico inserido no programa acadêmico de Monitoria da Pró-Reitoria de Graduação da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), e que teve como objetivo a padronização do ensino do exame clínico na disciplina de Semiologia Médica. Foram convidados todos os professores da disciplina de Semiologia Médica que, de acordo com suas possibilidades e disponibilidades, dispuseram-se a emprestar sua contribuição.

O livro ocupa-se da apresentação do conjunto de técnicas de observação clínica imprescindível na formação dos estudantes de medicina, em consonância com as metas de um treinamento voltado para a prática, visando ao desenvolvimento das habilidades psicomotoras e cognitivas requeridas para a formação do clínico generalista.

Trata-se de um livro técnico voltado sobretudo para o âmbito da graduação, para o aluno de Medicina, o monitor de Semiologia Médica e de outras disciplinas clínicas, assim como para o aluno do internato médico. Nesse contexto, o principal objetivo é no sentido de construir e aperfeiçoar o conhecimento semiológico para o desenvolvimento cognitivo e psicomotor do aluno no decorrer do curso, e a sua futura prática como médico generalista, em consonância com o Projeto Político-Pedagógico do Curso de Graduação em Medicina. Como público-alvo secundário, pretende-se que este trabalho proporcione também reciclagem de informações semiológicas para profissionais médicos recém-formados e médicos residentes de clínica médica. Por outro lado, esse livro também se destina a professores que pretendem lecionar na disciplina Semiologia Médica do Adulto.

Vale destacar que não existem órgãos formadores para docentes de Semiologia Médica e a literatura pertinente não é homogênea nos conceitos relacionados a essa disciplina fundamental, dificultando a uniformidade do processo ensino-apredizagem em uma área extremamente importante do curso de graduação médica. Portanto, produziu-se um texto instrucional que os estudantes de Medicina utilizarão não somente durante o aprendizado inicial do exame clínico, mas que poderão consultar no decorrer de todo o curso médico e na sua pós-graduação ou residência médica.

Na produção desse livro, está implícita a idéia de que a tarefa didática, principalmente quando o principal objetivo é a formação adequada dos profissionais, e não apenas a educação de cientistas e pesquisadores, exige todo um trabalho de preparação e organização dos textos instrucionais, e tal tarefa deve ser feita predominantemente pelos próprios professores da disciplina em questão.

Percebe-se, de há muito tempo, na disciplina de Semiologia, a necessidade de uma padronização do ensino das técnicas semiológicas, para superar as diferenças verificadas até então, facilitar e estimular a aquisição das competências técnicas específicas necessárias ao aluno de medicina na sua iniciação ao aprendizado do exame clínico. Nesse contexto clínico, os livros didáticos podem proporcionar uma orientação fundamental para a aprendizagem prática. Por isso, salienta-se a conveniência e o proveito de se dispor de um livro feito sob medida, como este manual, além do fato de ser um trabalho conciso, considerando a extensão da matéria tratada e da orientação dirigida especificamente para estudantes de medicina e médicos residentes.

Além disso, a existência de um material didático adequado tornam desnecessárias as anotações em classe, que tanto distraem o aluno e, assim, tornam-se obsoletas também as aulas magistrais, propiciando a prática de aulas mais dialógicas. A adoção atual de um novo modelo de ensino advindo na prática pela introdução do novo currículo no curso de medicina possibilita que a obra seja adotada como texto de referência na disciplina de Semiologia.

Por outro lado, consideramos que são profusos os sinais e técnicas de exame clínico descritos nos livros-texto de Semiologia Médica, tanto antigos e não re-editados, quanto nos mais recentemente publicados. Tais livros de iniciação ao exame clínico pecam, muitas vezes, por repetir conceitos que talvez não sejam fidedignos ou válidos na realidade clínica.

Considerando a maior parte dos livros de Semiologia Médica disponíveis, alguns muito bons, porém um pouco difíceis em seu manuseio pelos alunos, “Exame Clínico do Adulto” pretende ser uma proposta simples e prática, no intuito de estabelecer uma padronização metodológica de qualidade.

Queremos - à parte a tautologia - salientar a importância da disciplina de Semiologia Médica no âmbito acadêmico. A Disciplina de Semiologia Médica (Departamento de Medicina Interna, Centro de Ciências Médicas, UFPB) compreende o aprendizado inicial do exame clínico no curso de Medicina. A disciplina é ministrada em um momento ímpar da formação médica, com reflexos sobre todo o restante da graduação e vida profissional. Representando uma prática pedagógica voltada para a construção de uma teoria/prática fundamental na preparação dos futuros médicos no cuidado ao paciente, a importância da Semiologia na formação do médico também é ressaltada nas novas diretrizes curriculares do curso de graduação em Medicina, na sua referência ao aprendizado basilar de técnicas de anamnese e exame físico.

Quinta-feira, 8 de Janeiro de 2009

"O Amanuense Belmiro", de Cyro dos Anjos


O "Amanuense Belmiro", de Cyro dos Anjos, é um romance escrito em primeira pessoa, estruturado como um diário. É do tipo reflexivo, auto-consciente, revelando a introversão de um homem. Trata-se da história de um homem tolhido pelo excesso de vida interior numa profissão burocrática. Belmiro Borba, personagem central, chegou aos 40 anos sentindo que nada fez de apreciável até aquele momento. Relembra sua infância e adolescência, buscando encontrar-se. Vive um cotidiano vazio e sem sentido para ele e escreve em um diário seus sentimentos, em busca de uma ponte entre a realidade e o sonho. Belmiro é um homem tímido e sonhador, ao mesmo tempo dotado de grande capacidade de observar a si e aos outros. Ele apaixona-se por Jandira, mas guarda para si o segredo por medo de confessar seus sentimentos. Assim, a sua acomodação com a vida faz dele um mero observador. Parece que a sua vida só passa a fazer sentido quando ele começa a escrever seu diário.

"No momento preciso em que certos quadros se desdobram aos nossos olhos, quase sempre não lhe percebemos a intensidade lírica, nem lhe apreendemos a intensidade rica de poesia. Nosso olhar circula vago e às vezes quase indiferente. Mais tarde é que, através da memória vamos com os olhos da alma penetrar no âmago daquelas paisagens extraordinárias. Quanto o incosnciente é fino, sutil, receptivo, nos seus trabalhos subterrâneos!"

"Já não tenho com quem conversar, e isso é grave para uma pessoa que foge de conversar consigo mesma"

"Na verdade, no centro do nosso espírito, as recordações se transformam em romance, e os fatos, logo consumados, ganham outro contorno, são acrescidos de mil acessórios que lhes atribuímos, passam a desenrolar-se num plano especial, sempre que os evocamos, tornando-se, enfim, romance, cada vez mais romance. Romance trágico, bufo, ou sem nenhum sentido, conforme cada um de nós, monstros imaginativos, é trágico, é cômico ou absurdo."

Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2008

And so this is Christmas...

So this is Christmas
And what have you done
Another year over
And a new one just begun
And so this is Christmas
I hope you have fun The near and the dear ones
The old and the young
A very merry Christmas
And a happy New Year
Let's hope it's a good one
Without any fear
And so this is Christmas (...)

("Merry Christmas" ["Was is over"], John Lennon)

Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2008

Se...


(Um poema de Rudyard Kipling)

Se és capaz de manter tua calma, quando todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,e para esses no entanto achar uma desculpa.
Se és capaz de esperar sem te desesperares,ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,e não parecer bom demais, nem pretensioso.
Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires,de sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires tratar da mesma forma a esses dois impostores
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas, e refazê-las com o bem pouco que te reste
Se és capaz de arriscar numa única parada, tudo quanto ganhaste em toda a tua vida
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada, resignado, tornar ao ponto de partida
De forçar coração, nervos, músculos, tudo, a dar seja o que for que neles ainda existe
E a persistir assim quando, exausto, contudo, resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!
Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes, e, entre Reis, não perder a naturalidade
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes, se a todos podes ser de alguma utilidade
Se és capaz de dar, segundo por segundo, ao minuto fatal todo valor e brilho
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo, e - o que ainda é muito mais - és um Homem, meu filho!

Domingo, 14 de Dezembro de 2008


"A memória é algo cheio de truques e esquecer significa, freqüentemente, o meio pelo qual a mente se defende contra dores passadas e remorsos por oportunidades perdidas"
(Irwin Shaw)

"O pobre homem rico" - Irwin Shaw

A saga da família Jordache, construída a partir de Axel Jordache, alemão que mudou-se para os EUA, depois de ser ferido da guerra e Mary, menina criada em um orfanato de freiras, sem conhecimento de quem seriam os seus pais verdadeiros. Os filhos Gretchen, Rudolph e Thomas, frutos de uma união instável, formam-se perdidos em seus mundos, soltos, sem referência de lar ou amor fraternal e familiar.
Todas as expectativas dos pais concentraram-se em
Rudolph, o filho que, segundo eles, daria o sucesso e a alegria que esperavam. Com essa especial atenção, o personagem ambicioso, vaidoso, mesmo contido em suas emoções e atitudes, estrutura-se e se auto-constrói para agradar e bem apresentar-se e, com isso, conseguir seu milhão almejado.
Gretchen, percebendo que com sua beleza poderia ser capaz de conseguir uma vida melhor, sede à febre das tentações, entregando-se ao milionário Teddy Boylan, personagem que tem um papel fundamental na trama, até quase seu final. Com Boylan, dá-se início a formação intelectual e personalidade de Gretchen.
Thomas, entregue a si próprio, tem apenas seus punhos, a tendência às brigas, o prazer que sente com elas, mostra a capacidade de mudança que pode-se conseguir, aprendendo com as próprias experiências e misérias que vive.
A trama dos
Jordache passa-se entre 1945 e 1968, mostrando um retrato político da época da II Grande Guerra, e seu pós. Os caminhos que percorrem cada personagem, num livro que nos dá uma deliciosa leitura com estrutura descritiva de lugares bem feita, época e perfis psicológicos bem trabalhados, mostra-nos que as escolhas que fazemos traçam os rumos serão dados e que sem sempre as escolhas mais fáceis podem ser as certas.
Vemos, nesse trilhar dos Jordache, o alcoolismo, carência, revolta, solidão, ganância, ambição, traição, amores perdidos, perdão, luxúria...
Boa dica de leitura, para alguém que procura um livro-novela, bem escrito de fácil entendimento.
O livro foi adaptado para um seriado televisivo na década de 70.
Shaw dá continuidade à saga dos Jordache em "A vida segue".


Link para download: não encontrado.

Sábado, 13 de Dezembro de 2008

De Erich Fromm

"A principal missão do homem, na vida, é dar luz a si mesmo e tornar-se aquilo que ele é potencialmente."

(Erich Fromm)

Quarta-feira, 3 de Dezembro de 2008

"O encontro das águas =crônica irreverente de uma cidade tropical" - Fernando Sabino


Crônica escrita por Sabino em 1976, construída em cima de uma viagem que faz a Manaus, onde o personagem Eduardo Marciano detalha as impressões sobre a cidade, suas construções, comércio, história. Descritivo, faz-nos ter a sensação que também viajamos pela cidade e nos deixa, por um lado, a nostalgia de querer conhecer o lugar, e, por outro, parece que descreve nossa própria metrópole, pelas semelhanças no crescimento mal planejado, nos monumentos históricos abandonados, nos mercados abarrotados, na miséria escondida.
Vale a pena ser lido, por tratar-se de uma obra de Fernando Sabino, mas quem não gosta de livros descritivos, não aconselho.

Terça-feira, 14 de Outubro de 2008

"Relações perigosas" - Choderlos de Laclos

Um romance diferente em sua construção. Trata-se de uma reunião de cartas, cronologicamente encaixadas, que dá sentido ao texto, revelando os personagens, as armadilhas, os pensamentos velados, os interesses, vingança, sentimentos nobres e outros não tanto.
O Visconde de Valmont e a Marquesa de Merteuil são os personagens que traçam a teia da intriga, construindo um cenário em benefício próprio, seus prazeres e manipulações de condutas humanas, sendo responsáveis pelo destino dos demais que se afiguram no romance.
Fala da ingenuidade construída pela educação severa obtida em conventos, da expiação pela culpa, da entrega à paixão sem limites, da crueza do espírito humano em seu egoísmo.
A paixão que o Visconde de Valmont simula para seduzir a Presidenta de Tourvel; a situação criada pela Marquesa de Merteuil para vingar-se de seu amante, tirando a ingenuidade de sua esposa prometida, a ingênua Cécile Volanges; a sedução pela sedução, além da infidelidade e devassidão de uma sociedade da época, corrompida pela embriaguez da luxúria, na França, prestes à eclosão da Revolução Francesa...
Um livro que nos deixa um pensamento em que o maquiavelismo pode ser encontrado em qualquer lugar, em qualquer humano, disfarçado, escondido e, talvez, nunca seja percebido.
Pela Marquesa de Merteuil, Laclos nos mostra como se construiu o espírito da personagem de forma magnânima, com estudos, observações, auto-disciplina.
Vale a pena conferir o romance.

Frases:
"A razão, já tão insuficiente para prevenir as nossas infelicidades, ainda mais o é para nos consolar delas"

"O amor é, como a medicina, apenas a arte de ajudar a Natureza"

"
[A] miséria adquire valor na medida das privações que experimentamos. São as migalhas de pão caídas da mesa do rico: este as despreza, mas o pobre as recolhe avidamente e dela se nutre "


Segunda-feira, 6 de Outubro de 2008

"O advogado do diabo" - Morris West

Blaise Meredith,clérigo, descobre que possui pouco tempo de vida, devido um carcinoma no estômago. Apesar da doença, é designado pela Igreja para investigar o processo de beatificação de Giacomo Nerone, morto 15 anos atrás, na Calábria-Itália, um personagem misterioso, com passado obscuro, tendo como desafio descortinar a estória, depondo como Advogado do Diabo, para construção de pontos de vista que deponham contra a beatificação, descobrir as razões do culto à memoria e analisar os milagres a ele atribuídos. Em meio às descobertas com os que conviveram com Nerone, vê-se num emaranhado de intrigas, inveja, maquiavelismo.
A fé coloca à prova pelo personagem, tendo a morte como provocação de reflexões dos próprios ideais, das ideologias seguidas, da vida dedicada ao Vaticano, solitária, vista ao seu final, deparando-se com realidades escusas da Igreja, revendo conceitos e paradigmas.
Um final que surpreende, um livro que vale ser lido.

Frases:
"Na incredulidade, não existe pai, não existe relação. A gente não vem de parte alguma, não vai para parte alguma. Nossos atos mais nobres são destituídos de significado."

"Não é novidade alguma a gente ser solitário. Isso ocorre com todos, mais cedo ou mais tarde. Os amigos morrem, os membros de nossa família morrem. Amantes e maridos também. Ficamos velhos, doentes. A última e a maior solidão é a morte."

"Sinto a vida escoando-se de mim. Quando vem a dor, choro, mas não existe prece em meu pranto. Somente medo."

Domingo, 21 de Setembro de 2008

"Inveja" - Sandra Brown

Um livro de suspense, fácil leitura, que prende pelo malabarismo da autora em fazer pontes do irreal, que seria um romance escrito por um escritor misterioso, a própria estória desse e a ligação com os demais personagens.
Maris Martherly-Reed, editora, interessa-se pelo manuscrito enviado a ela e vai à procura do autor para comprar e publicar o livro que tem como título "Inveja", recluso em uma ilha na Geórgia.
Como um drama, quase um quebra-cabeças sendo montado, não se consegue parar de ler, tal como um romance policial.
Inveja, amor, ódio, vingança, ganância... São temas que fazem do livro.
Do enredo do livro, deixamos apenas esses breves comentários, para que não se perca a sensação de suspense que ele dá.

Download: [Não encontrado... infelizmente.]

"O testamento" - John Grisham

Herdeiros de uma imensa fortuna, lutando pela contestação do testamento de TroyPhelan, milionário que deixa seus bens a uma filha ilegítima, que todos os outros filhos e esposas desconheciam.
Inicialmente narrado em primeira pessoa por Phelan, até o seu suicídio, ato cometido logo depois de assinar o último e polêmico testamento.
Passando pela ganância dos advogados e herdeiros endividados, o livro também envereda pelo mundo do vício, do alcoolismo e da luta de um dos personagens, NateRiley, em manter-se "limpo".
Riley é o advogado que vai à procura da herdeira Rachel Lane, da qual sabe-se, além do nome, tratar-se de uma missionária que presta serviços em uma aldeia indígena no Estado do Mato Grosso, Brasil.
Da aventura de O´Riley nessa busca, sua crença em Deus é fortalecida, dando novos rumos a sua vida.
A descrição física da maioria dos personagens fica em suspenso pelo autor, recurso reservado a alguns poucos e secundários, não principais. Foca principalmente na ambição, cobiça, num mundo onde o dinheiro é a mola que impulsiona a maioria dos que fazem parte da trama de Grisham.

Download: "O testamento" - John Grisham

Sábado, 13 de Setembro de 2008

De Galileu

"Não me sinto obrigado a acreditar que o mesmo Deus que nos dotou de sentidos, razão e intelecto, pretenda que não os utilizemos."
(Galileu Galilei)

Sábado, 6 de Setembro de 2008




"Não mais representar o visível, mas tornar visível"

(Paul Klee)

Segunda-feira, 18 de Agosto de 2008

"O apanhador no campo de centeio" - J.D.Salinger

Um fim-de-semana na vida de um adolescente Holden Caulfield, que, após reprovação nas matérias do internato que estuda, reluta na volta para casa, andando a sem rumo por NewYork, às vésperas do natal. Nesse tempo, o vazio e os pensamentos simplistas do personagens, narrados de forma a mostrar a visão de mundo sem fundamentos e sem sentido.
O autor consegue ser fiel ao linguajar próprio da idade do adolescente, tanto em pensamento quanto nos diálogos, mostrando sua instabilidade emocional, com memórias soltas, idéias que se atropelam, aparentemente sem nexo.
Narrado em primeira pessoa, o livro tornou-se mais popular quando veiculado pela imprensa que inspirou
Chapman ao assassinato de John Lennon, em 1980.

Download: "O apanhador no campo de centeio" - J.D.Salinger

Sábado, 5 de Julho de 2008

O plágio segundo Mário de Andrade

"Não sou de forma alguma contra o plágio em trabalhos de qualquer natureza, e muito tenho plagiado. Já roubei idéias artísticas, processos literários e pensamentos críticos (...). O plágio tem qualidades ótimas: enriquece a gente, desentorpece uma exposição intelectual do excesso de citações, permite a gente melhorar idéias alheias boas, mas mal expressas incidentalmente."

(Andrade, 1939, apud Espinheira Filho, 2001, p. 34 -35)